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EXCLUSÃO E VULNERABILIDADE: AS CONSEQUÊNCIAS DA NOVA POLÍTICA HABITACIONAL PARA IMIGRANTES

Aline Bossi Teixeira | 17/03/2026 20:49 | INFORMES
IMG Photo: Kjetil Ree

No dia 20 de fevereiro, o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos (HUD) iniciou a proposta de implementação de uma nova regra que visa impedir a permanência de membros não regularizados em moradias subsidiadas pelo governo federal. Sob as leis já existentes, esse programa já não está disponível para imigrantes em situação irregular; entretanto, até o momento, nada impedia que esses indivíduos residissem com cidadãos americanos ou residentes legais, formando as chamadas famílias “mistas”. Nesse sentido, além de configurar mais um mecanismo de repressão direcionado à população imigrante, a medida se fundamenta no argumento de tornar a distribuição dos benefícios de moradia mais “justa” e exclusiva para cidadãos americanos.


Ainda é importante lembrar que, desde o ano anterior, o departamento já vinha compartilhando dados das famílias registradas no programa com o Departamento de Segurança Interna, com o objetivo de facilitar a identificação e a localização de indivíduos em situação migratória irregular. Assim, com essa possível nova configuração, a gestão de Donald Trump vem fomentando um ambiente cada vez mais hostil à população migrante, buscando alcançar, nas palavras do secretário do departamento, Scott Turner, “o fim da era em que imigrantes ilegais e outros não cidadãos inelegíveis exploram os recursos da habitação pública”. Dessa forma, a prioridade do benefício passaria a ser direcionada exclusivamente ao chamado “povo americano”, ao mesmo tempo em que a política se apresenta como mais um instrumento de endurecimento e exclusão migratória. Essa faz parte de mais uma das várias medidas anti-migratórias que a gestão de Donald Trump tem trabalhado desde o seu primeiro dia de mandato, e que não se difere em apresentar controvérsias e falsas vantagens perante o seu eleitorado. Ou seja, já não é novidade que muitos empregos e funções ocupadas pela população imigrante têm sofrido uma forte evasão, uma vez que se trata de áreas nas quais o cidadão americano já não demonstra tanto interesse em atuar. Estudos recentes apontam, inclusive, que os imigrantes representam uma parcela significativa da força de trabalho nos Estados Unidos, chegando a cerca de 19% do total, além de contribuírem com centenas de bilhões de dólares em impostos e movimentarem aproximadamente US$ 1,7 trilhão em atividade econômica, evidenciando sua relevância para o funcionamento da economia nacional.


Para além disso, a implementação desses diversos obstáculos à permanência imigrante também pode resultar em um aumento ainda mais expressivo da população em situação de rua nas cidades, agravando um cenário que já é crítico em centros urbanos como Nova York, São Francisco, Nova Jersey e Los Angeles, de forma já existem alertas quanto essas medidas que restringem o acesso de populações vulneráveis a programas de moradia, pois tendem a intensificar a crise habitacional já enfrentada por essas regiões. Não obstante, a economia não tem crescido de acordo com as tantas promessas feitas em campanha por Trump, cenário que vem gerando frustração entre parte do eleitorado e levantando críticas sobre os resultados concretos de sua política econômica. Com isso, as tensões sociais e políticas dentro do território estadunidense tendem a se agravar cada vez mais.


Não há nenhuma surpresa quanto à série de consequências iminentes caso essa regra seja efetivada. Como já mencionado, cidades que já enfrentam graves problemas relacionados à população em situação de rua sofrerão um agravamento ainda maior após essa medida, e é importante considerar quem são esses indivíduos afetados: estima-se que cerca de 80 mil pessoas possam ser despejadas das moradias subsidiadas, sendo aproximadamente 57 mil delas crianças. Além disso, na perspectiva econômica, a concretização da medida também pode acarretar um aumento nas despesas do próprio programa habitacional. Isso ocorre porque famílias de status migratório misto não recebem subsídios completos e, consequentemente, acabam pagando aluguéis mais altos proporcionalmente, o que atualmente gera uma forma de receita adicional para o departamento responsável pela política habitacional. De forma geral, famílias poderão ser separadas, milhares de pessoas ficarão à deriva, sem qualquer apoio ou acesso a serviços públicos básicos, e muitas delas poderão passar a viver em condições habitacionais extremamente precárias.


Paralelamente, esse cenário tende a ampliar a vulnerabilidade dessa população diante das políticas de fiscalização migratória, especialmente diante da atuação de órgãos de controle como o ICE, responsável pela detenção e deportação de imigrantes em situação irregular. Relatórios recentes e denúncias de organizações de direitos humanos também apontam para situações de falta de transparência e desaparecimento de detidos em centros de detenção migratória, o que reforça as preocupações sobre o destino de indivíduos que passam a ser alvo mais direto dessas políticas repressivas.


Diante desse cenário, também é possível observar um processo crescente de distanciamento em relação à terra natal entre muitas famílias imigrantes que vivem há décadas nos Estados Unidos. Diversos relatos apontam que, após anos ou mesmo décadas estabelecidas no país, essas famílias passaram a construir sua vida social, econômica e familiar quase exclusivamente em território estadunidense; em muitos casos, os filhos nasceram ou cresceram nos Estados Unidos, frequentaram escolas locais e desenvolveram toda a sua rede de relações no país. Assim, a possibilidade de retorno ao país de origem surge como uma perspectiva marcada por incerteza e falta de referências concretas. As famílias relatam que seus filhos praticamente não conhecem o país de origem dos seus pais, tendo contato com o local apenas por meio de fotografias, vídeos ou relatos de parentes; nesse contexto, medidas que ameaçam a permanência dessas famílias no país acabam colocando esses indivíduos diante de escolhas extremamente difíceis, uma vez que muitos já não possuem vínculos estruturais sólidos com a terra natal, ao mesmo tempo em que enfrentam incertezas quanto à possibilidade de permanecer no lugar onde construíram suas vidas.


Assim, os próximos meses devem ser decisivos para a definição do futuro da regra proposta pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano. Caso avance nas etapas administrativas e seja efetivamente implementada, governos locais, organizações sociais e instituições responsáveis por políticas habitacionais deverão lidar com novos desafios relacionados ao deslocamento de famílias, à pressão sobre programas de assistência e ao possível aumento da vulnerabilidade social em centros urbanos já afetados pela crise habitacional. Ao mesmo tempo, é esperado que o tema continue gerando debates entre autoridades federais, governos estaduais, organizações de direitos civis e especialistas em políticas públicas, especialmente em relação aos impactos sociais e econômicos da medida. Logo, o desenvolvimento dessa proposta e suas possíveis revisões ou contestações institucionais serão fatores importantes para determinar de que forma a política habitacional e a gestão migratória nos Estados Unidos poderão se configurar nos próximos anos.

 

REFERÊNCIAS

LUDDEN, Jennifer. HUD rule could push families with undocumented immigrants out of their homes. NPR, 19 fev. 2026. Disponível em: https://www.npr.org/2026/02/19/nx-s1-5525859/hud-ban-undocumented-immigrants-families-housing-children. Acesso em: 10 mar. 2026.

LUDDEN, Jennifer; FADEL, Leila. HUD will share data with Homeland Security to target immigrants without legal status. NPR, 26 mar. 2025. Disponível em: https://www.npr.org/2025/03/26/nx-s1-5339689/hud-will-share-data-with-homeland-security-to-target-immigrants-without-legal-status. Acesso em: 10 mar. 2026.

Just over one year mark, Trump’s failing economy leaves Americans with buyer’s remorse. Groundwork Collaborative, s.d. Disponível em: https://groundworkcollaborative.org/news/just-over-one-year-mark-trumps-failing-economy-leaves-americans-with-buyers-remorse/. Acesso em: 12 mar. 2026.

How does immigration affect the U.S. economy? Council on Foreign Relations, s.d. Disponível em: https://www.cfr.org/articles/how-does-immigration-affect-us-economy. Acesso em: 12 mar. 2026.

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