Casa Presidencial El Salvador
Após um ano do polêmico acordo entre os governos de El Salvador e Estados Unidos, o novo documentário “The Deal: Trump, Bukele & the Gangs of El Salvador”, produzido pela Frontline e pelo El Faro, expõe com detalhes as motivações da parceria entre os países e suas reverberações.
No ano de 2025, Nayib Bukele, o qual se autodeclara o “ditador mais descolado do mundo”, e Donald Trump consolidaram uma aliança a partir de uma resolução que permitia a "terceirização" de parte do sistema prisional, através do envio de imigrantes ilegais para a prisão de segurança máxima no país latino americano, o Centro de Confinamiento delTerrorismo (CECOT). Considerado um dos maiores centros de detenção do mundo, o CECOT é amplamente conhecido pela infração dos direitos humanos dos encarcerados e por ser um ambiente degradante. O complexo, apesar de extenso, abriga cerca de 80 pessoas por cela, com o intuito de causar desconforto e discussões internas, e apresenta diversos relatos de abusos físicos e psicológicos. Além disso, a higiene pessoal é feita no mesmo ambiente em que passam 23,5 horas de seus dias, sem colchonete, travesseiro ou qualquer privacidade, uma clara violação das Regras de Nelson Mandela da ONU.
Em abril do ano passado cerca de 250 imigrantes apreendidos pelo ICE, em sua maioria venezuelanos, foram deportados para Tecoluca com supostas acusações de pertencerem a gangues e grupos criminosos, como a Trende Aragua. No entanto, a maior parte dos acusados não possui histórico criminal nem comprovação de tal conexão com os procurados, deixando claro que a operação era mais uma das políticas adotadas para o plano de deportação em massa e a retórica de "tolerância zero" do presidente dos Estados Unidos. Enviados para um presídio com foco no encarceramento de terroristas, essa condição passa a pertencer aos imigrantes que sequer haviam cometido crimes e apenas buscavam melhores condições de vida.
O governo de Bukele ficou conhecido pela prisão em massa de participantes de gangues salvadorenhas que aterrorizavam o território a partir de homicídios e tráfico. No entanto, foram descobertos acordos do presidente com as próprias organizações criminosas como por exemplo a MS-13, cujos certos benefícios eram dados em troca da diminuição de homicídios e apoio eleitoral nas áreas habitadas pelas gangues.
Nesse sentido, constatam-se as reais intenções de Bukele com o pacto. Por meio do apoio norte-americano, ele também teria a chance de repatriar os líderes detidos nos EUA, ou seja, aqueles que poderiam apresentar provas incriminatórias sobre as negociações realizadas no passado e estragar a tentativa de sua reeleição.
Em suma, ambas as governanças ferem os direitos humanos na maneira em que lidam com os migrantes latino-americanos, tratados como criminosos e utilizados como moeda de troca em acordos incoerentes em prol de interesses particulares. Nesse sentido, o caso apresentado reforça a necessidade de uma maior vigilância internacional sobre governos que operam sob o autoritarismo e justificam seus atos em falsas tentativas de gerar “segurança estatal”.