U.S. Department of Homeland Security (DHS)
Nos últimos meses o governo Trump tem aplicado medidas restritivas à liberdade de imprensa em solo doméstico. Processos judiciais alfandegários e limitações à presença de veículos de imprensa em espaços governamentais e outros locais importantes estão entre tais medidas impostas à jornalistas americanos e estrangeiros. Segundo Clayton Weimers, diretor executivo da “Reporters Without Borders” (RSF), Donald Trump tenta controlar as narrativas políticas ao restringir o acesso da imprensa a espaços de decisões cruciais, usando medidas abstratas para evitar a transparência e a responsabilização, o que fere a liberdade de imprensa.
Entre as medidas aplicadas a indivíduos, destaca-se a detenção de jornalistas cidadãos dos EUA e a restrição da entrada de jornalistas estrangeiros no país. Pelo menos dois jornalistas que cobriam temáticas relacionadas a imigração para veículos de comunicação de língua espanhola foram detidos e mantidos sob custódia em centros da Alfândega e Proteção de Fronteira (ICE) dos EUA. Estefany Rodríguez e Mario Guevara que, segundo autoridades, estavam nos EUA de forma legal, foram deportados para seus países de origem, Colômbia e El Salvador, respectivamente.
Em junho do ano passado, agentes do ICE negaram a entrada do escritor australiano Alistair Kitchen depois que funcionários da fronteira revistaram seu telefone e o interrogaram sobre seu posicionamento a respeito do conflito entre Israel e grupos armados na Faixa de Gaza, visto que, anteriormente, o escritor havia publicado artigos sobre protestos estudantis em universidades no seu país na plataforma Substack.
Os protestos estudantis, realizados no início do Governo Trump em 2025, também foram alvo de medidas judiciais que restringiam a realização dessas manifestações. A Ordem Executiva n. 13.899, assinada em janeiro do ano passado, indicava o uso de “todas as ferramentas legais disponíveis e apropriadas” pelo governo federal para processar, remover e deportar aqueles que, segundo a ordem, seriam estudantes imigrantes legais envolvidos no intitulado “assédio e violência antissemita ilegais” por Washington.
Além das recusas de entrada de jornalistas estrangeiros nos EUA, o Departamento de Segurança Interna (DHS) propôs mudanças na emissão de futuros vistos de jornalistas estrangeiros, o visto “tipo 1”. Nesta nova proposta seria permitida a entrada de jornalistas estrangeiros por até 240 dias, com ressalva de apenas 90 dias para aqueles com cidadania chinesa, diminuindo o tempo de estadia de correspondentes de veículos jornalísticos internacionais nos EUA.
Dentre as limitações à presença de veículos de imprensa em espaços governamentais, em outubro de 2025, o Governo Trump anunciou restrições aos jornalistas que atuam dentro da Casa Branca. As novas medidas impediram que jornalistas tenham acesso aos escritórios do segundo andar pertencentes à Secretaria de Imprensa da Casa Branca, local onde os repórteres tinham, até então, relativo acesso para conversar com autoridades dentro da Casa Branca. Ainda em outubro do ano passado, dois repórteres do Capital News Service (CNS) foram obrigados a se retirar do Tribunal de Imigração de Hyattsville (Maryland) até receberem permissão do governo federal para acompanharem as audiências. Posteriormente, as autoridades federais reverteram a decisão, alegando que audiências de imigração são abertas ao público e à imprensa.
Em maio passado, Trump propôs que funcionários federais assinassem acordos de confiabilidade com objetivo de evitar vazamentos e o compartilhamento de informações confidenciais da Casa Branca e de outras instituições do governo. Desta forma, procurou-se impedir a evasão de documentos para a imprensa, o que compromete a continuidade e, muitas vezes, a sigilosidade da agenda de instituições governamentais como o ICE. Segundo MC Pinover, representante do Escritório de Gestão Pessoal (OPM) dos EUA, em e-mail enviado ao veículo Reuters, “esta ação concentra-se na preocupação de que a publicação não autorizada de informações governamentais sensíveis esteja prejudicando as operações das instituições e abalando a confiança no governo federal”.
Diante do cenário exposto, constata-se que o governo Trump tem implementado um conjunto de medidas sistemáticas que resultam na restrição da liberdade de imprensa nos Estados Unidos, operando tanto no nível individual quanto institucional. No âmbito individual, as ações de controle manifestam-se de forma severa por meio de processos judiciais alfandegários, detenções e deportações de jornalistas legalizados, como os casos de Estefany Rodríguez e Mario Guevara, além do interrogatório e recusa de entrada de escritores estrangeiros motivados por suas publicações ideológicas, a exemplo de Alistair Kitchen. Essa política de controle migratório e ideológico estende-se também aos vistos "tipo 1", cuja proposta de redução do tempo de permanência de correspondentes internacionais limita a cobertura jornalística estrangeira no país.
Paralelamente, o governo atua na limitação física e institucional do trabalho da imprensa em solo doméstico. Isso se evidencia nas restrições de acesso a espaços governamentais cruciais, como os escritórios da Secretaria de Imprensa na Casa Branca e tentativas de exclusão em tribunais de imigração, reduzindo os espaços de trânsito dos repórteres. Por fim, a recente imposição de acordos de confiabilidade para funcionários federais, justificada pelo governo como uma necessidade de proteger operações sensíveis e evitar o vazamento de informações de órgãos como o ICE, consolida um cerco que dificulta a evasão de documentos para as mídias.
Em suma, o governo utiliza de ferramentas legais, administrativas e migratórias para esvaziar os espaços de atuação dos profissionais da comunicação, o que, conforme apontado pela “Reporters Without Borders”, mitiga a transparência pública e evita a devida responsabilização das instituições governamentais.