Sob a política anti-imigração do governo Trump, novas deportações de migrantes para os chamados “terceiros países” ocorreram sem que os deportados tivessem vínculos ou cidadania com o país de destino. A partir da alegação da “ilegalidade” das permanências dessas pessoas nos EUA, essa estratégia também é orientada para indivíduos cujos países de origem rejeitam o retorno ou naqueles que obtiveram proteção legal na justiça americana por correrem riscos de tortura e perseguição em suas terras natais.
Conforme publicou pela CBS News, essa política envolveu pactos com dezenas de nações, incluindo territórios com histórico de instabilidade, conflitos ou violações de direitos humanos, culminando no envio do primeiro grupo de cerca de 20 pessoas, em sua maioria de latino-americanos, para a Libéria, na África Ocidental, como parte de um acordo para acolher até 1.200 deportados em 12 meses.
Segundo matéria da Al Jazeera, a implementação do plano enfrentou severas incertezas jurídicas, logísticas e operacionais, devido a fatores importantes, dentre eles, a chegada do grupo a Monróvia ocorrer sem transparência quanto às nacionalidades completas, instalações de abrigo, documentos de entrada ou status legal dos envolvidos. Enquanto a gestão liberiana defendeu o pacto sob uma retórica humanitária e histórica, garantindo aos acolhidos a condição de convidados livres para solicitar asilo e com custos financiados pelos EUA e entidades internacionais, o processo gerou reação principalmente de entidades civis no país. Parlamentares e membros da sociedade civil questionaram a constitucionalidade do acordo por não ter passado pelo Poder Legislativo, apontando riscos à segurança e à soberania nacional, além da falta de infraestrutura biométrica e capacidade operacional do Estado para monitorar e integrar esses indivíduos.
Foi relatada ainda forte resistência por parte dos indivíduos durante a logística na viagem de deportação. Segundo apuração da Reuters, no voo originado na Louisiana com parada no Senegal e pouso na Libéria, cinco dos vinte passageiros, três homens cubanos, um brasileiro e uma camaronesa, recusaram-se a desembarcar. Após serem informados de que retornariam aos Estados Unidos, foram desviados para Malabo, na Guiné Equatorial, e forçados a desembarcar contra a própria vontade.
Atualmente, os indivíduos recém-chegados encontram-se retidos em um hotel desativado ao lado de dezenas de outros deportados remetidos anteriormente à região, enfrentando condições precárias de alojamento, falta de assistência médica e recusa de apoio jurídico. Enquanto órgãos de segurança e relações exteriores dos EUA defendem as transferências como medidas legais, seguras e eficazes para desencorajar a migração irregular, entidades internacionais e ativistas de direitos humanos denunciam o modelo por violar diretrizes internacionais, tratar pessoas como objetos e expô-las ao risco de repatriação indireta aos locais dos quais emigraram.
As transferências forçadas de migrantes
para terceiros países vêm expondo artifícios drásticos sob o discurso do
combate à imigração ilegal pelo governo Trump, pois não observa as garantias
fundamentais e os princípios dos direitos humanos e internacionais. Observa-se
que esses acordos integram outras políticas que novamente negam qualquer
suporte jurídico adequado aos imigrantes, além de todos outros direitos
fundamentais. Essas práticas acabam por submeter indivíduos a duras condições
de existência e, no caso das deportações a terceiros países, convertem nações consideradas
vulneráveis em depósitos de pessoas sem qualquer vínculo local sob condições
pouco conhecidas.